
Hoje, a vida que era doce, cedeu. Os ombros arqueiam diante ao fardo imposto pelo inevitável. De onde surgirá algo que me conforme ? Do tempo ? Este que oras é amigo, oras se torna um palhaço, resolveu zombar dessa vez de minhas desgraças. Passa ele vagarosamente, invadindo de lembranças, apunhalando as emoções, me fazendo ter certeza que não volta atrás. E dessa certeza que nasce a dor, essa companheira indesejável que teima em não me deixar.
E então agora, passado a liturgia dos ritos, passada a confusão dos sentimentos, passado a inquietude dos corpos, eis que a alma abranda e se silencia na mansidão da tristeza. Amargando como fel a realidade indefectível, retirando o chão das certezas, constatando a realidade bruta, ferindo de morte convicções e certezas.
Somente o amor pode transformar frivolidades em lembranças ternas e reconfortantes. Somente ele pode engrandecer pequenos gestos e marca-los em nossa memória afetiva e perdurar por anos a sensação de bem-estar. E eu, que me sentia tão forte, que me preparei por tantos anos na inútil vala da racionalidade, que consegui trancar em fundas gavetas minhas fraquezas, que consegui mascarar meus temores, me encontro aquebrantada, impotente, amarga por não ser Deus.
Nadir Mendes de Barros
06/05/1926 --02/10/20013